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Estruturas Narrativas: O Esquema Quinário

junho 30, 2013

(Este artigo é o terceiro e último de uma série de três sobre estruturas narrativas.)

 

Em sua “Poética (Ars Poetica)”, o poeta romano Horácio diz que “[…] não deve uma peça ficar aquém nem ir além do quinto ato”. Aparentemente, entre Aristóteles e Horácio houve uma evolução muito grande da forma como o teatro era pensado. Só que, infelizmnete, Horácio não foi muito mais além que isso – ao contrário do Estagirita, o latino não explicou como essa divisão deveria ocorrer. Contudo, marcados pela influência greco-romana, muitos autores ocidentais continuaram escrevendo para o teatro com esse esquema.

 

Mas que esquema é esse, afinal?

 

Mesmo que Aristóteles tivesse declarado que o esquema básico envolvia ao menos “início (prótase), meio (epítase) e fim (catástrofe)”, alguns autores devem ter notado que muito mais ocorria entre esses três atos. Para começar, entre o início e o meio deve haver algo – bem como entre o meio e o fim.

 

Mas isso não é óbvio?

 

Em termos práticos, sim. Mas em termos estruturais/funcionais para a Arte, isso é um pouco mais complicado. É preciso pensar em como ocorrerá o desenvolvimento da personagem atrelado à evolução do enredo. Essa preocupação é que leva muitos a escreverem manuais de roteiro ou dar palestras sobre escrita criativa. Dependendo da duração de uma peça, filme ou mesmo romance, é preciso pensar em como manter a atenção do espectador ou leitor o tempo todo.

 

Essa percepção de uma norma estrutural será pensada pelo dramaturgo e romancista alemão Gustav Freytag, que irá expôr um esquema quinário “padrão” – os cinco atos – em seu manual clássico, Die Technik des Dramas. Essa obra irá se contrapôr à proposta de autores contemporâneos de Freytag, como Henrik Ibsen (“A Dama do Mar” e “John Gabriel Borkman são peças com quatro atos, um experimento do autor norueguês. Vide que “Um Inimigo do Povo” tem cinco atos.) ou George Bernard Shaw, que criava peças com um ato apenas!

 

A estrutura que Freytag propunha era a seguinte:

 

 1

 

Isso me lembra algo…

 

Pois é, a imagem que ilustra o artigo sobre estruturas de três atos. Mas existem algumas diferenças, certo? Ocorre que toda percepção de uma estrutura narrativa só pode ser derivada de algo tão simples e básico – mas útil – como a estrutura de três atos.

 

No esquema quinário de Freytag – aliás, chamado de Pirâmide de Freytag -, os atos se sucedem da seguinte maneira:

 

  • Introdução: o espectador/leitor é apresentado a uma situação “X”. Nessa situação, seremos apresentados às partes protagonista e antagonista;
  • Elevação da Ação: algo irá ocorrer para que essas partes entrem em choque;
  • Clímax: o choque/conflito ocorre, marcando o ponto em que nenhuma das partes poderá retroceder;
  • Declínio da Ação: uma das partes se sobressai à outra;
  • Dénouement: essa expressão em francês, que significa “desatar”, “desenlace”, remete ao “nó” aristotélico – “a parte da tragédia que vai desde o início até o ponto a partir do qual se produz a mudança para uma sorte ditosa ou desditosa” (Poética) -, ou seja, a resolução em si – “chamo desenlace a parte que vai desde o princípio desta mudança até o final da peça”.

 

Esse tipo de estrutura se faz presente principalmente nas peças de Shakespeare, como “Romeu e Julieta”:

 

  • 1º ato: Romeu aparece na casa dos Capuleto atrás de Rosalinda e conhece Julieta. Detalhe: há uma guerra entre as famílias Montecchio e Capuleto;
  • 2º ato: a cena do balcão – o reconhecimento dessa luta entre as famílias. Romeu pede ajuda do Frade;
  • 3º ato: Romeu mata Mercúcio, primo de Julieta, e é exilado;
  • 4º ato: Paris pretende se casar com Julieta, que pede ajuda do Frade que procura entrar em contato com Romeu pra explicar-lhe sobre um estratagema, que envolve Julieta se fingir de morta. Tudo dá errado;
  • 5º ato: Romeu, sabendo da morte de Julieta, volta para Verona. Paris e ele se enfrentam junto à tumba de Julieta. Paris morre, Romeu comete suicídio, e Julieta, que fingia estar morta, se mata por fim. As famílias aprendem a lição e Verona fica em paz.

 

Que belo “desenlace”, hein?

 

Levemos em conta que a questão em “Romeu e Julieta” é muito mais política que individual – são duas famílias em guerra que prejudicam a paz de Verona. O amor dos dois é uma ameaça ao equilíbrio de forças, um ataque ao orgulho tradicional e ancestral de ambos os lados. Esse é o fator complicador, aquilo que demanda uma (re)solução.

 

Um outro exemplo clássico de como essa Pirâmide pode ser demonstrada na ficção está em “Édipo Rei”, de Sófocles:

 

  • 1º ato: o povo de Tebas pede ajuda a Édipo, seu rei, para que ele, um sábio, descubra o que pode estar por trás de uma peste mortal que assola a todos;
  • 2º ato: Édipo manda chamar Tirésias, um profeta, que responde de forma complexa às perguntas de Édipo;
  • 3º ato: Jocasta descobre o verdadeiro motivo por trás da peste – ela é mãe de Édipo, de quem foi profetizado que mataria o pai e se casaria com a mãe;
  • 4º ato: o Pastor que encontrou Édipo vivo, após ter sido abandonado quando bebê, conta toda a história até o rei perceber que a profecia se cumpriu;
  • 5º ato: Édipo se cega e Jocasta se mata. Édipo é exilado por Creonte.

 

Mais um belo “desenlace”, né? Ocorre que o problema todo está na discussão entre Destino e Livre Arbítrio. Quem acaba ganhando é, justamente, o Destino, que brinca com Édipo fazendo-o pensar estar agindo de forma livre. Além disso, Édipo é protagonista e antagonista – as causas de suas dores e das de Tebas se originam dele.

 

Mas bem, não há algo esquisito aí?

 

Como assim?

 

Geralmente o clímax vem antes da Resolução/Dénouement/Ato Final, não?

 

Pois é. E é justamente por isso que a Pirâmide de Freytag não é muito utilizada na atualidade. Quando comparamos a estrutura trágica e seus interlúdios com a Pirâmide de Freytag, faz todo sentido. No entanto, ao querermos ver ação em tudo, parece até que estamos “esticando” os atos para preencher espaço. Afinal, Shakespeare e Sófocles podem ter tido muito sucesso com tais formas – embora mesmo a fórmula de Sófocles fosse a de três atos em si -, mas isso ocorre porque havia uma série de questões humanistas e filosóficas das quais esses autores tratavam. Shakespeare podia fazer uso de sub-enredos, enquanto que as peças trágicas eram encenadas durante uma festividade religiosa. A tendência atual no teatro – nas Artes em si – é ser direto, não distrair o espectador. Do contrário, isso implicaria no risco de perdermos a questão principal de vista – mesmo pra um leitor que apenas analisasse o texto. Aliás, de acordo com o clímax freytagiano, se a tensão está toda no meio, fica cansativo para o espectador esperar pelo declínio. Não, algo tinha que ser feito… e os dramaturgos, críticos e escritores voltaram à fórmula de três atos e/ou (re)pensaram esse esquema quinário.

 2

 

Err, não mudou muita coisa, não é?

 

Como assim não mudou?! Olhe novamente.

 

Ahh… De fato, algo mudou.

 

Pois é, e não só na disposição da estrutura, mas na compreensão da dinâmica entre os atos. Aristóteles e Freytag viam as peças em formas categóricas e propunham que esses modelos estruturais fossem os usados; Propp não propôs a utilização de suas funções na literatura contemporânea, apesar de ela vir a ser utilizada por textos maravilhosos ou mesclada à Jornada do Heroi. O problema é que seguir categorias definidas pode prejudicar a forma como o conteúdo se apresenta ao espectador/leitor. Que tudo tenha começo, meio e fim é fato, mas daí a querer “determinar” os pontos de virada entre esses três à despeito da “atenção” do espectador/leitor?

 

Teóricos como A.J. Greimas, Paul Larivaille e Claude Brémond, por meio de seus estudos de narratologia, acabaram por chegar à conclusão de que toda narrativa segue um esquema quinário, mas não aquele de Freytag, o qual parece ser “estrito” em vez de “natural”.

 

  • Estado inicial: a introdução ao momento presente;
  • Complicação: dentro desse momento, algo ocorre;
  • Dinâmica: um embate entre forças;
  • Resolução: o embate chega, enfim, ao seu clímax, sendo encerrado;
  • Estado final: uma nova situação se apresenta – ou passa a um estado semelhante ao inicial – após o embate.

 

Cada um desses atos é elaborado em cima de uma “sequência”, pensada por Brémond como o momento da ação em que a situação é perturbada e as forças que se opõem partem para o ato.

 

Poderia ser mais claro?

 

Digamos que o “estado inicial” apresente uma situação de paz. O fator complicador será botar essa paz em risco. Poderíamos pensar o oposto, como uma situação bélica sendo posta em risco por uma solução pacífica – algo que se vê muito em romances fantásticos, como a série “Harry Potter” ou a trilogia “O Senhor dos Aneis”.

 

Como no esquema de três atos, somos apresentados a uma relação causa-consequência, dentro da qual atores/actantes/personagens realizam de forma ativa a passagem de um ato a outro. Como na vida real, em que pra alcançarmos algo precisamos seguir uma série de etapas com suas complicações e obstáculos, o mesmo ocorre na ficção. Daí uma situação climática como a apresentada pela resolução quinária prender tanto a atenção do leitor/espectador: muitas vezes, mesmo próximos da meta, sentimos uma tendência a desistir. É o momento do tudo ou nada. O que é proposto no início, na complicação, é o que interessa ao espectador/leitor.

 

Vemos a aplicação de um esquema como esse, por exemplo, em “Ensaio sobre a Cegueira”, de Jose Saramago:

 

  • 1º ato: um homem fica cego. Todo mundo fica cego;
  • 2º ato: o Governo manda internar todos. A anarquia domina do lado de fora;
  • 3º ato: ocorrerá um embate entre os instintos animalescos e humanos;
  • 4º ato: quando tudo parece em paz, todos se conformando, a Cegueira desaparece;
  • 5º ato: em aberto, visto que aquele País terá que ser reconstruído, mas alguma lição ficou com todos.

 

O homem ficar cego não é uma “complicação”?

 

Não, pois o romance começa com a Cegueira. Enquanto é apenas um caso, tudo bem. Mas quando se torna uma epidemia, a forma como os cegos são tratados é que “complica” o enredo em si, visto que o nosso Foco Narrativo se dispõe a seguir aquele grupo de pessoas em especial, que passará por um verdadeiro inferno procurando manter sua dignidade.

 

Precisamos entender que o “estado inicial” é uma situação em si, não um ponto calmo/quieto/pacífico. É a nossa introdução àquele enredo. Com essas informações, teremos dados suficientes pra prosseguir na leitura.

 

Agora, se tivéssemos que repensar os esquemas das peças citadas acima, “Édipo Rei” e “Romeu e Julieta”, nosso esquema quinário contemporâneo seria dessa maneira:

 

Édipo Rei

 

  • 1º ato: o Povo de Tebas se apresenta a Édipo pedindo que ele ajude a solucionar o problema da peste;
  • 2º ato: Tirésias se apresenta e declara por metáforas a razão da peste;
  • 3º ato: Jocasta percebe o real motivo da peste e discute com Édipo. Este ouve a fala do Pastor;
  • 4º ato: desconsolado, Édipo se cega e Jocasta se mata;
  • 5º ato: Creonte, cunhado de Édipo, exila-o.

 

Viram como algo mudou entre esses esquemas? O momento de tensão é deslocado do 3º ato em si para um momento entre o 3º e o 4º atos. O espectador/leitor se pergunta, “o que Édipo fará agora?” O choque posterior faz mais sentido naturalmente que ao deixarmos tudo separado, sem fluidez.

 

Vemos o mesmo ocorrendo em “Romeu e Julieta”:

 

  • 1º ato: Romeu conhece Julieta;
  • 2º ato: a guerra entre as famílias é um fator complicador, e eles reconhecem isso;
  • 3º ato: Mercúcio, primo de Julieta, é morto em um duelo por Romeu, que é exilado de Verona;
  • 4º ato: Julieta finge estar morta. Romeu e Paris, que queria se casar com ela, lutam junto à tumba dela. Romeu se mata, assim como Julieta após ver o corpo do amado;
  • 5º ato: Verona está em paz.

 

Tanto em “Édipo Rei” como em “Romeu e Julieta”, o esquema quinário aqui aplicado prioriza os atos de suas personagens, numa escalada que depende apenas de suas vontades. Daí os próprios teóricos proporem que essa superestrutura é, bem, basicamente universal. Toda história, por mais simples que seja, acaba exibindo pontos de virada semelhantes, lembrando o esquema proppiano e suas funções – que, aliás, reforçavam a ideia de ação/atitude das personagens como momentos definidores da narrativa.

 

Diferente das questões que envolvem as camadas interpretativas do texto, estamos aqui diante de formas de entender a progressão de um enredo. Se fizéssemos o mesmo com a vida, verificaríamos como é possível aplicar estruturas semelhantes, à despeito da duração de cada ato – daí a origem do que chamamos de “mimese”, mas isso é assunto para um próximo post.

 

Espero ter ajudado vocês com essa trilogia de esquemas narrativos. Uma última dica que dou é que vocês se lembrem de que alguns desses esquemas são mais fáceis e mais percetíveis que outros – por exemplo, o de três atos é muito mais simples que as funções de Propp. São essas as principais estruturas que vemos na ficção – na não-ficção também, mas isso depende muito do autor -, e se você souber pelo menos a de três atos e a quinária, já estará feito no que concerne a compreender os pontos-chave de uma narrativa.

 

Uma boa leitura pra vocês, e até a próxima!

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3 Comentários
  1. Boa tarde.
    Muito obrigada pela explicação….

  2. Priscila permalink

    Obrigada, foi muito útil (:

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