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Estruturas Narrativas: O Esquema de Três Atos

fevereiro 24, 2013

(Este artigo é o primeiro de uma série de três sobre estruturas narrativas. Além do esquema de três atos, veremos também o modelo funcional de Propp e o esquema quinário.)

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O que Aristóteles e Roupa Nova têm em comum?

Hein?

Ambos tem histórias com “começo, meio e fim”.

Ok, a piada é péssima, mas essa é a questão: toda história tem começo, meio e fim.

Mas isso não é óbvio?

Infelizmente, nem sempre. Você conseguiria definir sua própria vida em termos tão restritivos? Ok, você nasce, cresce e morre – essa é sua narrativa. Mas não aconteceram tantas coisas na sua vida? Não houve momentos em que você deixou de ser um coadjuvante para ter um papel mais ativo? Em que você se viu em meio a algo inesperado e fez o possível para que as coisas voltassem a ficar como antes, ou o mais próximo disso?

Falando assim, você parece dar à vida real uma dimensão heroica…

Pois é. E foi isso que os autores trágicos gregos fizeram: pegaram um heroi (uma personalidade cujos feitos os tornavam admirados pelos homens comuns, havendo mesmo um culto em torno deles) e o fizeram passar pelas provações da vida real. Como? Ora, é “fácil” enfrentar o inimigo a quilômetros de distância do lar – você sabe qual seu objetivo e procura cumpri-lo. E na vida doméstica? Como agir quando há leis ditando que controlam cada movimento seu, sejam elas escritas ou não?

As peças trágicas eram encenadas em celebração ao deus Dioniso, mas o que devemos considerar relevante aqui é o fato de que tais peças diziam respeito à vida comum das pólis, as cidades-estado. Como os herois eram comparados a semideuses e a crença nos deuses olímpicos era inconteste, os autores trágicos usavam enredos que questionavam a percepção desses herois, colocando-os em situações comprometedoras – Édipo, sem saber, mata o pai e se casa com a mãe; Orestes precisa assassinar a própria mãe para não ser amaldiçoado e termina sendo perseguido do mesmo jeito; Agamênon é impelido a sacrificar a própria filha para a vitória dos gregos sobre os troianos, etc. Questionando os herois e seus fa(r)dos, os autores questionavam o establishment, mostrando que a situação estava ficando insustentável – se aquelas coisas podiam vitimar homens tido como “sagrados”, “protegidos”, como o homem comum poderia esperar viver sem medo?

Estruturalmente falando, essas peças eram parecidas, numa sequência previsível. Foi identificando que isso que Aristóteles nos outorgou o mais antigo guia de roteiros e manual de escrita criativa: a “Poética”.

 

Assentamos que a tragédia é a imitação duma ação acabada e inteira, de alguma extensão, pois pode uma coisa ser inteira sem ter extensão. Inteiro é o que tem começo, meio e fim.

(Aristóteles, “Poética”, trad. Jaime Bruna)

 

Como o meu interlocutor imaginário disse antes, isso é óbvio, certo? Pois bem, vejamos aqui algo interessante: Aristóteles diz que a peça trata de uma “ação” com “alguma extensão” e que tenha “começo, meio e fim”. Essa ação – curta ou pequena, tanto faz – é aquilo que Yves Reuter chama de “pedaço de vida” – algo isolado de uma parte maior. Os gregos chamavam isso de “fábula” (mythos) – vulgarmente falando, o enredo. Com tantos acontecimentos que podem envolver a vida de uma pessoa, precisamos de um foco, ver o problema de forma restrita.

Aristóteles continua:

 

Começo é aquilo que, de per si, não se segue necessariamente a outra coisa, mas após o quê, por natureza, existe ou se produz outra coisa;…

 

Ou seja, a situação inicial – o ponto em que a história realmente começa, se queremos estabelecer o panorama que foi prejudicado pelo evento ou complicação.

 

…fim, pelo contrário, é aquilo que, de per si e por natureza, vem após outra coisa, quer necessária, quer ordinariamente, mas após o quê não há nada mais;…

 

A situação final – onde a história termina, o seu desfecho. Vide que ao dizer “não há nada mais”, Aristóteles deixa claro que a trama se encerra, que a vida continua. Aquele evento ou sequência de eventos isolados que formaram a narrativa, no entanto, está encerrado.

 

…meio [é] o que de si vem após outra coisa e após o quê outra coisa vem.

 

Está claro, não está?

Mas vou explicar mesmo assim: “vem após outra coisa” e “após o quê outra coisa vem” são frases que implicam causalidade – o que ocorre no meio é resultado de algo que ocorreu no início, sendo o fim um resultado do que ocorre no meio.

Mas hein?

Vou demonstrar da seguinte maneira:

 

  • Início: Uma situação tranquila até que algo a perturba.
  • Meio: Necessidade de retomar à situação anterior e/ou de remover o objeto de perturbação.
  • Fim: Perturbação neutralizada – talvez voltemos à situação anterior.

 

Os atos têm uma relação causal entre si, e esse princípio de causa e consequência, com duas ideias/personagens/situações em choque, é o que vai guiar a narrativa do início ao fim. Pense em “Um Conto de Duas Cidades”, por exemplo:

 

  • 1º ato: Charles Darnay está casado. Antes, havia sido inocentado de uma acusação por traição.Volta para sua pátria natal, a França. É capturado pelo revolucionários.
  • 2º ato: Darnay é condenado à morte. Sua família e seus amigos tentam imaginar algum plano para salvá-lo. Há confrontos físicos. Entra em cena Sydney Carton, um sósia que se passa por ele no dia da condenação.
  • 3º ato: Charles volta para os braços de sua amada.

 

Quem leu o livro sabe que os acontecimentos não são exatamente distribuídos dessa maneira – o livro tem três partes e apresenta dezenas de personagens muito antes de Charles Darnay aparecer em cena. No entanto, o foco do romance envolve o Sr. Darnay – é em torno dele que giram todas as demais personagens da obra de Dickens. Mas vamos dar outro exemplo, este de uma peça de teatro (“Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams):

 

  • 1º ato: Stella Kowalski recebe sua irmã, Blanche DuBois, em casa. Stanley Kowalski permite que ela fique pois deseja uma posse da família de sua esposa – até descobrir que a propriedade foi perdida.
  • 2º ato: Blanche tenta iniciar um relacionamento com Mitch, colega de trabalho de Stanley. Este briga com a esposa – e depois com Blanche, descobrindo que a cunhada sofre de problemas mentais.
  • 3º ato: Blanche é levada para um manicômio. Stella e Stanley ficam sozinhos, mas os acontecimentos anteriores aparentemente deixaram marcas nos dois.

 

Bem, não é um final muito feliz, certo? As narrativas funcionam em um esquema de causa-consequência, e as contemporâneas levam isso até mesmo pra dimensão psicológica, algo levado em conta numa peça como “Um Bonde Chamado Desejo”. No teatro, a dinâmica é diferente daquela do romance: tudo é mais enxuto, as cenas precisam ter uma sucessão cronológica mais perceptível. E quando os romances começam in media res (no meio da história)?

 

  • 1º ato: Bella Swan se muda para Forks, indo morar com seu pai. Conhece um rapaz estranho – Edward Cullen -, que na verdade é um vampiro. Andando com ele, acaba sendo perseguida por um vampiro forasteiro, James.
  • 2º ato: Bella procura fugir, sendo protegida pelos “irmãos” de Edward, enquanto este e sua “família” tentam perseguir os demais do bando. Mas ela é atraída para uma armadilha, e ocorre um confronto.
  • 3º ato: Sã e salva, Bella começa a namorar Edward.

 

Crepúsculo”, certo? Da Stephenie Meyer?

Certíssimo. E começa no meio: Bella está para ser atacada por James quando o romance começa. Mas precisamos saber como ela chegou até lá, não é? Toda obra tem um enredo principal, cuja narrativa se destaca dentro de uma narrativa maior se formos pensar em termos de franquia, série, sequências, prequels, spin-offs, etc. No entanto, as obras geralmente vem prontas.

Ah, mas e quanto a “Ulisses”, de James Joyce?

 

  • 1º ato: Leopold Bloom (e, paralelamente, Stephen Dedalus) sai(em) para passear por Dublin. O encontro de Bloom e Dedalus vai levar a complicações.
  • 2º ato: Bloom e Dedalus passeiam juntos mas passam por situações complicadas, que vão desde confrontos com antissemitas – Bloom é judeu – ao apego paternal de Dedalus por seu amigo. Os dois chegam na casa de Bloom e se despedem.
  • 3º ato: O encontro com Dedalus causa algum efeito em Bloom, embora não fique muito claro à primeira vista – estamos na esfera do psicológico. No meio de tudo isso, 100 páginas descrevendo o que alguém pensa enquanto se masturba – curiosamente, esse monólogo/solilóquio poderia ser desmontado estruturalmente, como também outros episódios do próprio romance.

 

Certo, mas e “Finícius Revém”?

 

  • 1º ato: Finícius morre e acorda como HCE. HCE é acusado de um crime e se esconde.
  • 2º ato: Ocorrem problemas de ordem edipiana (Freud explica). HCE morre novamente, mas volta a falar por meio de um médium, defendendo-se por meio de um longo monólogo.
  • 3º ato: ALP, sua esposa, tenta acordá-lo. (E começa tudo de novo).

 

Confesso que precisei de ajuda para verificar o esquema de três atos nesse romance, considerando que 1) nunca o li inteiro; e 2) existem dezenas de narrativas paralelas, mas o foco está no próprio Finícius. Toda história tem início, meio e fim – toda, mas toda mesmo. O fato de haver camadas superficiais é apenas um detalhe.

Ok, eu entendi você chamar tais momentos de “atos”, mas pode me explicar a imagem acima?

O primeiro ato (situação inicial/introdução) vai estabelecer o status quo a ser perturbado, o que implica em cenário, momento histórico, estado emocional, etc. – o plano de fundo. É durante esse ato que ocorre a alteração de estado.

O segundo ato (complicação/desenvolvimento) mostra como os envolvidos lidarão com essa perturbação. É nesse momento que vemos confrontos significativos, a busca por algo definitivo e que ponha as coisas no lugar.

O terceiro ato (situação final/conclusão) mostra como o confronto foi resolvido e se as coisas voltaram (ou voltarão) a ficar da forma que estavam antes da perturbação.

Ok, mas e o clímax?

O clímax não é obrigatório. Ele é “apenas” um efeito de tensão, quando as forças que se opõem chegam ao limite no combate. Repare que quando esse confronto não ocorre, chamamos de anti-clímax, porque a passagem para o terceiro ato ocorrerá independente dessa tensão – tudo precisa ter fim.

Quer dizer que esse esquema é recorrente na literatura?

Sim e não. Dificilmente Joyce pensou nele ao escrever “Ulisses”. Acontece que todo enredo precisa de um esquema básico que mostre o ponto de partida e o ponto de chegada, além das paradas feitas no meio do caminho. O esquema serve apenas para simplificar a identificação desses pontos.

Esses “atos” poderiam ser os atos de uma peça teatral?

Sim e não. As peças modernas têm, geralmente, três atos, o que se tornou uma convenção herdada das peças do dramaturgo noruguês Henrik Ibsen, mas vide que ele mesmo escrevia peças que podiam durar vários dias. Eles podem seguir tal estrutura se assim delineados, mas procuro me referir aqui aos momentos-chave de mudança de estado em uma narrativa.

Os atos sempre recebem esses nomes?

Depende do teórico. Por exemplo, roteiristas profissionais usam a estrutura de três atos com outros nomes (Exposição, Conflito, Resolução). Como é um esquema simples, muitas vezes veremos alguém tentando encaixá-los no esquema trágico grego ou latino, na Pirâmide de Freytag, no esquema quinário ou mesmo no modelo funcional de Propp. Essa estrutura é generalizante pois aborda apenas os pontos de virada mais claros – outras estruturas verificarão mais pontos de virada que não são distinguíveis à primeira vista, os momentos-chave do desenvolvimento da personagem, etc. Mas sem pressa por enquanto.

 

No próximo texto, veremos a contribuição de Vladimir Propp, filólogo russo, de orientação formalista, que, através dos estudos de morfologia dos contos de fada e do folclore regional, reconheceu padrões nas mais diversas histórias, influenciando posteriormente os estruturalistas, que procuraram realizar o mesmo através do esquema quinário (tema do último texto da série).

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