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A Santíssima Trindade Literária Aplicada: Um Exemplo

fevereiro 11, 2013

Nas últimas semanas vocês têm lido sobre como se dispõem e do que se trata cada um dos três principais conceitos da interpretação textual – a saber, Texto, Contexto e Subtexto. Cada post era acompanhado de uma imagem que demonstrava visualmente a disposição de cada conceito. E já que estamos falando em interpretação, já deixo claro uma coisa: não sou eu quem vai explicar como a imagem ilustra os conceitos – vocês são os leitores, vocês é que tem de interpretar, e eu já lhes dei as ferramentas. Contudo, antes de deixá-los ir e passarmos para o próximo assunto, vou demonstrar como isolar e perceber tais conceitos em um texto.

Leiam o texto a seguir:

 

JANEIRO DE 1999

O Verão do Foguete

Um minuto antes, era inverno em Ohio, as portas fechadas, as janelas trancadas, as vidraças embaçadas pela geada, pingentes de gelo em todos os telhados, crianças andando de trenó nas colinas, donas-de-casa parecidas com enormes ursos negros, andando com dificuldade pelas ruas geladas com seus casacos de pele.

Em seguida, uma longa onda de calor cruzou a cidadezinha. Um maremoto de ar quente; como se alguém tivesse deixado aberta a porta do forno de uma padaria. O calor pulsou entre as casinhas, os arbustos e as crianças. Os pingentes de gelo se soltaram, despedaçaram-se, derreteram. As portas se escancararam. As janelas se abriram. As crianças se livraram das roupas de lã. As donas-de-casa tiraram as fantasias de urso. A neve se derreteu e revelou os gramados verdes do verão anterior.

O verão do foguete. As palavras correram de boca em boca nas casas abertas e ventiladas. O verão do foguete. O ar quente do deserto redesenhou os cristais de gelo nas janelas, apagando as obras de arte. De repente, os esquis e os trenós tornaram-se inúteis. A neve, que caía do céu gelado sobre a cidade, transformou-se em chuva quente antes de tocar o solo.

O verão do foguete. As pessoas se debruçavam nas varandas gotejantes e observavam o céu avermelhado.

O foguete estava no campo de lançamento, e emitia nuvens quentes de fumaça cor-de-rosa. O foguete ficou lá naquela manhã fria de inverno, criando verão com cada descarga de seus poderosos propulsores. O foguete trouxe tempo bom, e o verão se instalou por sobre os campos por um breve momento…

(Ray Bradbury, As Crônicas Marcianas, trad. Ana Ban)

 

Quando falamos em Subtexto no post anterior, vimos que havia um choque de interpretações em um dos romances de Ray Bradbury, “Fahrenheit 451”. Desconheço se o autor tinha alguma consideração especial sobre o texto acima e os demais publicados em suas “Crônicas Marcianas”. Por isso, antes de procedermos com a interpretação do texto, vou explicar algumas coisas básicas que você deveria conhecer sobre esse livro:

1) Ele foi escrito na década de 1950, embora a primeira “crônica” tenha sido publicada em uma revista de ficção científica em 1947.

2) Bradbury lia muito Edgar Rice Burroughs, criador tanto do Tarzan como do heroi John Carter, soldado da Guerra da Secessão que é transportado para Marte e se torna a salvação dos marcianos.

3) O livro é formado de uma série de “crônicas” que mesmo separadamente têm uma história fechada, independente do restante do livro, mas ao mesmo tempo interdependente, já que ele trata da colonização do planeta vermelho.

4) Se existe algo que leitor algum deveria menosprezar, é justamente a citação inicial, que revela muito sobre a obra antes mesmo de você começar a lê-la. Nesse caso em especial: “‘É sempre bom renovar nosso senso de espanto’, disse o filósofo. ‘As viagens espaciais nos transformam em crianças novamente.’”

 

Agora prossigamos. Além do título, vocês devem ter reparado que deixei outros trechos da crônica em negrito. Ao ler essa crônica, verifiquei no texto indicações que demonstram a percepção que eu, como leitor, tive da obra. Digo isso porque notei algumas coisas que achei relevantes para a compreensão do texto, seus sentidos e o que Bradbury podia ter tido em mente ao escrevê-lo ou cogitá-lo colocar no papel. Pode ser que você, outro leitor, note coisas diferentes ou mesmo divergentes daquilo que notei. Contudo, se eu assumo uma posição em relação a algo, espera-se que eu demonstre como cheguei àquela conclusão. Vejamos então o que eu tenho a dizer sobre o conto com base naqueles três conceitos:

 

TEXTO:

Como sabemos que é uma “crônica”? 1) É curta. 2) Fala de algo curioso que foge do cotidiano. Ele começa descrevendo o clima na cidade (o frio do inverno), e então relata algo que foge do comum (o calor dos propulsores do foguete se espalhando por toda a cidade). Assim como o filósofo, é de se espantar um momento como esse. Nada é descrito com jargão científico, apesar de se tratar de uma obra de ficção científica. Mas sabe o que mais chama a atenção ali? A escolha das palavras. Visualize a cena: crianças andando de trenó, donas-de-casa com casacos de pele andando pelas ruas, a neve caindo. É uma cena bonita, as palavras formando todo o cenário. Em apenas um minuto, toda a cidade recupera seu vigor. É a impressão de alguém que experimenta/visualiza a cena e vê ali algo sobre o que refletir, já que é tão incomum. Não estamos acompanhando o foguete, mas a vida daquelas pessoas, interrompida/marcada por aquele breve momento. Contudo, você não reparou em algo estranho? Janeiro de 1999, crianças com trenó, casacos de pele… e foguetes? O que nos leva ao…

 

CONTEXTO:

Como já disse outras vezes, procure encaixar o autor no período em que ele viveu e a obra na época em que foi lançada. Passados dois anos após o fim da II Guerra Mundial, Bradbury lança essa crônica em separado na revista Planet Stories. Três anos depois, ela forma o conjunto de “Crônicas Marcianas”. Quando os primeiros foguetes são lançados para o espaço? Bem, os alemães tentaram com os V-2 – e claro que não era para fins pacifistas. Resultado? Aqueles filmes de ficção científica de qualidade duvidosa da década de 1950 e “007 Contra o Foguete da Morte” – lembre-se de que o vilão era eugenista.

Então, cinco anos depois do conflito terminado na Europa e na Ásia, o que todos queriam? Paz, com certeza. Mas havia alguma? A crise com a União Soviética estava apenas começando. Aos poucos ambas as potências iam aumentando sua zona de influência e sempre havia o risco de ocorresse um confronto direto – a chamada Guerra Fria. Todo esse temor de uma guerra nuclear em escala intercontinental se refletia nas artes, e Bradbury não ficou indiferente. Ao colocar a data do lançamento do foguete para “Janeiro de 1999”, ele garantia que ninguém o acusasse de ser ideologicamente alinhado e ainda demonstrava que estava certo e esperançoso de que chegaríamos tão longe quanto 1999 – e talvez mais, quando o foguete chegasse à Marte.

No entanto, “donas-de-casa parecidas com enormes ursos negros, andando com dificuldade pelas ruas geladas com seus casacos de pele”? O pessoal da PETA teria um surto se lesse/visse isso nos dias de hoje! “[C]rianças andando de trenó nas colinas”? Mesmo em 1999 já tínhamos Playstations e Dynavisions – e nem me lembre desse raio de videogame! -, além das animações japonesas. A TV havia muito ocupado o lazer dos mais novos – um dos temores de Bradbury em “Fahrenheit 451”. “As palavras correram de boca em boca nas casas abertas e ventiladas”? Quanto vizinhos conversam entre si nos dias de hoje? E o que dizer de “As pessoas se debruçavam nas varandas gotejantes e observavam o céu avermelhado”? Quantos foguetes e satélites e ônibus espaciais já não foram lançados de 1957 – Sputnik I – até hoje? Na década de 1960 era uma sensação ver o homem ir além da órbita da Terra, chegar à Lua. Hoje, isso é trivial.

Logo, por meio de um conhecimento básico de históra, reconhecemos esse texto como sendo, bem, fictício. No entanto, mesmo que não tivéssemos tal conhecimento, perceberíamos que ele não se encaixa em um período recente – a vida mostra isso. A tecnologia evoluiu muito dos tempos de Bradbury pra cá, redefinindo as relações pessoais e a percepção empírica da realidade, o que nos leva para o…

 

SUBTEXTO:

Como disse antes, Bradbury estava esperançoso de que chegaríamos longe, talvez até Marte. Ele deixa isso claro não só usando uma data anos distante de seu próprio tempo, mas através de uma série de imagens que ele passa em seu texto.

O autor começa dizendo “Um minuto antes, era inverno em Ohio…”. Temos duas coisas a considerar aqui: 1) numa era de progresso tecnológico, cada minuto faz muita diferença. Por isso, 2) encontramos a questão de ser “inverno”.

No que você pensa ao ler a palavra “inverno”? Muito frio, né? Apesar de ser uma boa estação para fazer bonecos de neve – pelo menos no Hemisfério Norte -, sabemos bem que nada cresce nesse período. Durante três meses somos confrontados com a provável escassez e a incerteza de que chegaremos até o fim da estação. Exagero meu? E que tal eu mencionar o “inverno nuclear”, um evento que alteraria as condições climáticas em caso de detonações atômicas? Lembre-se: estamos na década de 1950, divididos entre dois países com armamentos nucleares que podem destruir o mundo a qualquer momento. Mas mesmo que não estejamos mais nesse período, que o temor tenha passado, sabemos bem qual é a imagem que temos do “inverno”. O que ocorre logo depois que ele fala sobre isso, então?

[U]ma longa onda de calor cruzou a cidadezinha”. Chegamos ao “verão do foguete”. Ao darem ignição ao foguete, o calor dos propulsores “[revela] os gramados verdes do verão anterior”. E qual a imagem que temos do verão? Calor, certo? Ao contrário do frio, o calor nos anima – há casos e casos. Eu mesmo gosto do frio, mas vocês entenderam a ideia. Desde há muito vemos o “verão” como algo desejável, pois nos revigora. E quando vemos “gramados verdes” então… Aquelas cenas idílicas onde as pessoas correm por eles, sem medo de nada. Não é à toa que o verde é a cor da esperança – esperança essa que surge em todos graças ao progresso científico-tecnológico. O foguete representa a capacidade inventiva do homem de sempre se superar. É ele quem “[cria o] verão com […] seus poderosos propulsores”, mesmo que “por um breve momento”, já que Bradbury sabia que ter tal esperança poderia ser vã – uma incerteza que marca as demais crônicas desse livro.

 

Acima seguiram minhas impressões sobre essa primeira “Crônica Marciana”. O mesmo exercício pode ser realizado por vocês. Lembrem-se de que se trata de confrontar as experiências do autor e as suas próprias. É impossível ignorar nossa própria percepção, mas não podemos ignorar tampouco o histórico do escritor – e nem a própria história. Conheça o básico e você será capaz de interpretar a grande maioria dos textos disponíveis. A Sagrada Trindade Literária está aí para isso: para que você faça uso dela a fim de encontrar a Verdade. E o que é a Verdade? Pergunte ao autor, ao texto e a si mesmo. Não garanto que você vá sempre gostar da resposta, mas é sempre bom ouvir o Outro e saber o que ele tem a dizer – e, às vezes, para fazermos isso, precisamos ter o ouvido bem apurado.

Espero que vocês tenham sucesso ao fazer uso dessas dicas. Desejo a vocês uma boa leitura. Então, até a próxima!

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