Pular para o conteúdo

A Santíssima Trindade Literária: Subtexto

janeiro 27, 2013

(Este é o último de uma série de três textos sobre os três principais elementos de uma obra literária: Texto, Contexto e Subtexto.)

trindade

Continuando com a série de textos sobre a Santíssima Trindade Literária, abordemos agora a parte mais complexa e delicada da Interpretação Textual: o Subtexto. Contudo, como é de praxe, vamos recapitular o que entendemos por Contexto:

O Contexto é a conjuntura que dá razão a um autor para usar certos temas, palavras, expressões, gêneros, etc. O Texto contém a história, mas é o Contexto quem a situa. Considerando que todo autor está inserido em um momento histórico em que alguns temas são mais relevantes que outros, somos apresentados à visão que ele dá, a essa percepção que ele tem de algo que ele acredita ser importante passar pra frente. Na história humana, há temas que são recorrentes (Violência, Religião, Política, Descaso Social, etc.), temas que diversos autores vão se debruçar e dar sua opinião sobre o assunto. No entanto, há vezes em que o autor não expressa claramente sua opinião, esperando que o leitor a capte nas entrelinhas, ou que identifique sobre aquela situação algo que o próprio leitor experimentou – e aí encontramos o famoso Subtexto.

Logo no primeiro parágrafo, deixei claro que o Subtexto é algo complexo e delicado. Dou a esse elemento tais qualidades porque 1) envolve a experiência do autor; 2) envolve a experiência do leitor; 3) envolve o choque dessas experiências e o que sobra; e 4) nem sempre podemos estar certos sobre o que identificamos no final. Neste texto, vou procurar tornar isso mais “fácil” e dizer como não cair nas armadilhas.

Prontos? Então vamos lá. Peguemos mais um conto de Hemingway.

De novo?

 De novo. Mas esse é mais simples.

A garota olhou para as colinas.

“- São belas colinas, ela disse. – Não se parecem com elefantes brancos. Quero dizer, a cor de sua pele vista através das árvores.

“- Podemos beber mais um?

“- Tudo bem.

“O vento quente soprou a cortina de contas contra a mesa.

“- A cerveja é gostosa e gelada, disse o homem.

“- É belo, a garota disse.

“- É uma cirurgia muito simples, de verdade, Jig, disse o homem. Não chega nem a ser uma cirurgia.

“A garota olhou para o chão onde as pernas da mesa estavam colocadas.

“- Sabia que você não se importaria, Jig, disse o homem. Isso é apenas para deixar o ar entrar.

“A garota não disse nada.

“- Irei e ficarei com você o tempo todo. Eles apenas deixam o ar entrar e então e, bem, é perfeitamente natural.

“- E o que ocorrerá a nós depois?

“- Ficaremos bem depois. Como antes.

“- O que faz pensar assim?

“- É a única coisa que nos incomoda. É a única coisa que nos faz infeliz.”

(Ernest Hemingway, Colinas como Elefantes Brancos, tradução própria).

 

Alguém se dispõe a dizer do que se trata o trecho acima?

É muito óbvio, nem foi um desafio na verdade.

Foi, né? Mas e aí? O que faz você achar que seja “isso”?

Bom, ele fala em “cirurgia”, diz que “é a única coisa que nos faz infeliz”. Olha, essa foi fácil de matar.

Não vou discordar de você. Considerando que o tema é um dos mais delicados mesmo em nossos dias, é até fácil entender do que se trata o conto. Contudo, você repara que a única coisa que ele menciona é “cirurgia”, certo?

Certo.

 Por que não seria outra coisa? Um defeito congênito, uma…

Esquece, é isso mesmo.

Não discordo, trata-se disso mesmo. Neste exato momento em que você está lendo este texto, vai reparar que toda vez que menciono o tema coloco um pronome demonstrativo (disso, isso). No mais, você está dando à palavra um significado, formando uma ideia do que realmente existe no texto. Por conta do nosso momento atual, você está mais capacitado a compreender o assunto e discuti-lo abertamente sem risco de cometer um erro. Contudo, se considerarmos que o público de Hemingway quando ele escreveu esse conto (foi em 1927) ainda tinha problemas para aceitar certos assuntos, o jogo para com os leitores daquela época devia ser mais emocionante – pense só: ele usa “garota”, e não “mulher”. Isso indica algo, principalmente porque ele é o “homem”, não o “garoto” – década de 1920, pessoal. Não que hoje em dia não vejamos isso acontecendo, mas naquela época era mais complexo – leia a parte II do conto “Homenagem à Suíça”, também de Hemingway, para entender do que se trata o “Assunto”. Além disso, “elefante branco” em inglês (white elephant) tem o mesmo sentido: um ônus, um peso do qual devemos nos livrar. Assim sendo, acabamos de fazer um exercício em que colocamos a nossa experiência e o Contexto em que foi escrito para formar uma ideia geral do texto – isso é o Subtexto. Mas estou deixando isso muito fácil. Vamos em frente.

Quem aqui leu “A Revolução dos Bichos”? Quem não tiver lido, resumirei: é um romance onde um grupo de animais toma o controle de uma fazenda com o fim de criar um regime político onde todos sejam iguais. Lembra alguma coisa, né? Infelizmente, lembra, sim. Justamente por remeter a algo que conhecemos, sabemos que a história não termina bem. E sem frescura de spoilers, comparemos os trechos a seguir:

 

“[Diz o Velho Major:] Por que então continuamos nesta situação miserável? Porque quase tudo que produzimos com nosso trabalho é roubado de nós pelos seres humanos. Aí está, camaradas, a resposta para todos os nossos problemas. Resume-se a uma simples palavra: Homem. O Homem é o único inimigo verdadeiro que temos. Tire o Homem de cena e a causa-raiz da fome e do trabalho excessivo será abolido para sempre.”

No final:

“As criaturas do lado de fora olhavam do porco para o homem, e do homem para o porco, e do porco para o homem novamente. A essa altura, era impossível distinguir quem era o que.”

(George Orwell, A Revolução dos Bichos, tradução própria).

 

Conhecendo o Contexto em que o romance foi escrito, sabemos que Orwell estava decepcionado com os rumos do Comunismo como aplicado na União Soviética. Apesar de nunca ter abandonado a esperança, ele acreditava que as ideias de Lênin haviam sido totalmente desvirtuadas por Stálin. O romance, então, é uma sátira que não “dá nomes aos bois”, nem aos porcos, nem aos cavalos, mas cada uma das criaturas representa uma instituição ou autoridade importante no regime soviético. Contudo, além do Subtexto óbvio que captamos pela experiência do autor – e que poucos de nós vivenciamos -, temos mais uma lição no romance: por melhores que sejam as ideias, precisamos tomar cuidado com os rumos que qualquer revolução tome. Para os animais da fazenda, os Homens apenas haviam sido trocados pelos Porcos – no final, apenas uma troca de criaturas, nada demais.

Então, até o momento vimos a experiência do leitor e a experiência do autor – e eu deixei claro o choque que ocorre entre ambos. E quando há a dúvida? Vide o seguintes trechos de “Fahrenheit 451”:

 

“‘Você lê algum dos livros que queima?’”

“Ele riu. ‘Isso é contra a lei!’

“‘Ah, é claro.’”

“Se você não quer que um homem seja infeliz politicamente, não dê a ele dois lados para questionar – dê apenas um. Melhor ainda, não dê nenhum. Deixe-o esquecer que existe algo como a guerra.”

 

“Isso não veio do Governo. Não houve edito, declaração, censura para começar – oh, não! Tecnologia, exploração em massa, a pressão das minorias – por Deus, foi isso que aconteceu. Hoje, graças a eles, você pode ser feliz o tempo todo, ler quadrinhos, as boas e velhas confissões, ou os jornais mercantis.”

(Ray Bradbury, Fahrenheit 451, tradução própria).

 

Vamos lá, do que se trata o romance Fahrenheit 451?

De cens…

PLEIM. Errou.

Como assim errei?

 Na verdade, não posso nem dizer que você errou.

Mas então… por que você falou que eu errei?

 Você leu todos os trechos acima?

Sim, bem como o livro.

De fato, e eu também. O romance trata de um futuro onde a sociedade contrata “bombeiros” (firemen, pra vocês entenderem a ironia) para queimar livros e obras de arte. Um desses “bombeiros”, Guy Montag, acaba pegando um livro de curiosidade. E depois. E outro. E mais outro. Ele é casado com uma mulher que vive para assistir/participar de “novelas interativas”. Digamos que as coisas começam a sair dos eixos com esse ato de Montag.

Tá, mas e do que se trata o romance então?

 E eu é que sei?

Mas… você disse….

 Eu disse, né? Esse é o problema: foi EU quem disse. No caso dos exemplos acima, o Subtexto fica claro pelo exame do Contexto das obras, seja pela experiência de Hemingway (uma sociedade conservadora) ou de Orwell (a decepção com o regime soviético). Você pode verificar isso. Mas no caso de Fahrenheit 451? Bem, as respostas são diversas. Veja o que o autor mesmo tem a dizer:

 

“Ao escrever o romance curto Fahrenheit 451, pensei estar descrevendo um mundo que poderia surgir dentro de quatro ou cinco décadas. Mas há poucas semanas, em Beverly Hills, uma noite vi passar por mim um casal que estava andando com seu cachorro. Fiquei olhando para eles, totalmente chocado. A mulher mantinha em uma das mãos um rádio do tomando de uma caixa de cigarros, com uma antena aparecendo. Dessa caixa saía pequenos fios de cobre que terminavam em um cone plugado no ouvido direito dela. Lá estava ela, sem prestar atenção para o marido e para o cachorro, ouvindo ventos distantes e sopros e gritos de uma novela, em transe sonâmbulo, auxiliada pra cima e pra baixo por um marido que poderia muito bem não estar lá. Isso não era ficção.”

(Ray Bradbury, citado por Kingley Amis em New Maps of Hell: A Survey of Science Fiction, tradução própria).

 

Ah, então a resposta certa é “cultura de massa”?

Bradbury diria que sim. Mas e o que você diria? Durante uma palestra na UCLA – alma mater de Bradbury -, o autor saiu batendo o pé quando os alunos não concordaram com ele sobre essa resposta. Eu mesmo diria que ambas as alternativas estavam certas, afinal, o romance deixa transparecer ambos – e essa é uma das belezas da literatura: a possibilidade de que nem mesmo o autor saiba do que está falando, de quantos sentidos ele criou, sem querer, para um mesmo texto.

Portanto, para captarmos o Subtexto, precisamos ter em mente 1) a época em que o texto foi escrito; 2) as experiências do autor; 3) prestar atenção no que aparece no Texto em si, as palavras e símbolos; 4) pensar na possibilidade de que há algo no texto que é recorrente mesmo em nossos dias; 5) e procurar adquirir mais e mais conteúdo, porque muito do que os autores dizem pode ter a ver com as influências que sofreram – a saber, o que leram, que autores admiravam, no que acreditavam.

Então, encerrando essa trilogia de textos, digamos que o Subtexto representa as próprias fundações da ponte – aquilo que veremos desmontando-a. Também podemos dizer que é aquilo que a ponte nos traz à lembrança, o que ela representa para nós – mas mesmo isso tem algum fundamento na realidade, seja no passado ou no presente. Logo, aquilo que não está exposto, o não-declarado – mas implícito -, constitui o Subtexto. Mais uma dica final para vocês: saiba ser moderado e esteja certo daquilo que você entendeu.

Espero que as dicas acima tenham sido úteis a vocês. O próximo texto será uma aplicação mais clara de como identificar todos a Trindade de uma vez.

Obs.: Em todos os três textos eu inseri uma imagem e não expliquei do que se trata – bem como mencionei coisas e não as esclareci. Acreditem, foi proposital. Os textos explicam, a imagem resume – confio no intelecto de vocês. Lembrem-se: quem detém o “poder” da interpretação é o leitor; logo, procure ter certeza daquilo que você entende em um texto – e se preciso for, prove por A + B que você está certo. Literatura é uma via de mão dupla: esperando que o autor tenha feito a parte dele, fazemos a nossa. Nada mais justo.

Anúncios

From → Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: