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A Santíssima Trindade Literária: Contexto

janeiro 20, 2013

(Este é o segundo de uma série de três textos sobre os três principais elementos de uma obra literária: Texto, Contexto e Subtexto.)

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Continuando com a série de textos sobre a Santíssima Trindade Literária, passemos agora a outro campo muito importante e necessário para a interpretação textual: o Contexto. Mas, antes de mais nada, recapitulemos o que entendemos por Texto.

Resumidamente, Texto é a parte pela qual você passa os olhos (ou ouve) e que te traz a informação que você processará para sua compreensão. Como na ponte, é o que é perceptível de um ponto de vista superficial, aquilo que você deve percorrer. No entanto, precisamos lembrar que o Texto não é apenas fruto da imaginação do autor – a trama pode ser, mas não o Texto em si. A forma como o Texto é disposto, a escolha de gênero, as formas lexicais (palavras) e sintáticas (a ordem das palavras), e mesmo a trama têm como origem as experiências do autor, um ser humano de carne e osso tal como eu e você que viveu em algum período histórico, foi marcado por algum acontecimento, cresceu em uma certa família, foi de alguma classe social, estudou (com) alguém conhecido, etc. – esse é o campo do Contexto.

Me explique melhor, por favor.

Pois bem, lembra-se do texto passado de Hemingway, Homenagem à Suíça?

Sim, sim. E lembro – na verdade, li – que você falaria mais sobre o assunto, porque algumas coisas que eram captadas em cena não eram o Contexto em si, mas meramente o contexto da cena.

Exatamente. Uma pessoa que ponha um pé na frente do outro está andando – isso é óbvio, é observável. O mesmo ocorre com quem entra em um estabelecimento, faz um comentário isolado e, depois, quando o campo de visão se amplia, é que mostra estar atento à cena – isso é um contexto de cena, não o Contexto.

E que raios é o Contexto?

Recapitulemos o trecho usado no post anterior:

Dentro do restaurante da estação estava quente e iluminado; as mesas brilhavam de tão limpas e algumas estavam cobertas de toalhas com listras vermelhas e brancas; e haviam toalhas com listras azuis e brancas nas outras e, em todas elas, cestinhas com pretzels em saquinhos de papel lisos por causa do açúcar.

(Ernest Hemingway, Homenagem à Suíça – Parte II: Sr. Johnson Fala sobre o Assunto em Vevey, tradução própria).

 

Novamente, notemos algumas coisas: há uma estação, com certeza ferroviária; as toalhas de mesa têm listras vermelhas e brancas, e outras azuis e brancas; há saquinhos de pretzels nas mesas… O que você consegue captar dessa cena?

Bem, conhecendo a história de Hemingway…

Sim, é justamente nesse ponto que eu queria chegar. É por conhecermos a história de Hemingway que entendemos melhor o Contexto da cena que está inserida em um conto. Em primeiro lugar, Hemingway, norte-americano, esteve na 1ª Guerra Mundial atuando na Cruz Vermelha, sendo ferido em combate; segundo, mesmo durante a Guerra, a Suíça se manteve neutra, sendo o local ideal de fuga para os desertores ou para o tratamento especializado dos soldados feridos; e terceiro, a manutenção de tal neutralidade não impedia os suíços de ficarem agradecidos aos norte-americanos por terem derrotado as ditas Potências Centrais.

Tendo tais considerações em mente, conseguimos situar a cena (e o conto) no pós-1ª Guerra Mundial (“toalhas com listras vermelhas e brancas [e azuis e brancas]” – as cores da bandeira norte-americana, representando o agradecimento por parte dos suíços). Além disso, o conto é simples: pessoas que se encontram e conversam sobre qualquer assunto que apareça, cada um à espera de algo que espera encontrar naquela estação ou na próxima. A descrição do cenário é longa, os diálogos são rápidos – uma marca da evolução das comunicações no começo do século XX. Se levarmos em conta que a Suíça foi um lugar pacífico até o fim da guerra, mantendo tal posição neutra mesmo em um confronto mais violento que ocorreria dez anos depois da publicação do conto (1932), esse tédio, essa demora marcam um aspecto psicológico do século XX: a ansiedade pela falta de horizontes em um mundo destroçado e descaracterizado pelo relativismo moral.

Mas hein? De onde você tirou essa?

Pense nisso: de ambos os lados na 1ª Guerra Mundial, os soldados sabiam pelo que lutavam – a pátria. No fim da guerra, os acontecimentos posteriores (Tratado de Versalhes, Crash da Bolsa de Nova York, a ascensão do fascismo na Europa) forçaram a humanidade em geral a questionar os valores que antes tinham como certos – a saber, o dever para com a pátria, o respeito pelas instituições, a sacralidade da propriedade, etc. Enquanto alguns se guiam por um caminho extremista, outros não sabem que caminho tomar – são como a Suíça, indecisos por escolha, mas sem saber o que esperar.

Mas aqui você já não está no campo do Subtexto?

Minha interpretação do conto toma como base o Contexto – vê como isso é importante? No entanto, nem sempre o Subtexto depende do Contexto – neste conto, o(s) tema(s) real(is) são bem variados, sem que dependam de conhecimento histórico prévio. Ajuda ter embasamento para entender as escolhas dramáticas de Hemingway, mas isso não te impede de apreciar a trama. Se você for ler o conto por inteiro, captará temas como feminismo, alienação, divórcio, depressão, questões de ordem paterna, etc. Minha interpretação é uma entre várias possíveis, mas cheguei a ela basicamente prestando atenção ao Contexto em que a obra foi escrita – lembre-se Hemingway foi, antes de tudo, influenciado pelo momento que viveu.

Digamos que eu realmente queira/precise analisar o Contexto de uma obra. Como faço?

Bem, para você avaliar o Contexto de uma obra literária, é preciso que, pelo menos, você 1) saiba quando ela foi escrita e o que estava acontecendo nesse período; e 2) saiba um pouco sobre a história do autor.

E quanto às escolas literárias?

As escolas literárias serão vistas em outro post, mas o período em que são criadas também é importante para a compreensão de suas características.

Certo, você demonstrou através da história e de um jogo filosófico que o Texto é influenciado por acontecimentos externos ao autor. Como verificar aqueles que são próximos, que vem de dentro do autor?

Você já deve ter ouvido falar de Charles Dickens, não?

Ah, Dickens. “Oliver Twist”, “Um Conto de Natal”, “Um Conto de Duas Cidades”, “Grandes Expectativas”…

Pois é. Mesmo quem não leu, pelo menos já deve ter ouvido falar ou visto alguma adaptação de algum texto de Dickens – não faltam versões de “Um Conto de Natal”, com o velho Ebenezer Scrooge sendo interpretado pelo Tio Patinhas, pelo Capitão Jean-Luc Picard ou mesmo por Truman Burbank – procure no Google para saber quem são os últimos dois.

Em seu tempo – e mesmo ainda hoje -, Charles Dickens foi um dos autores mais vendidos, suas obras sendo publicadas e traduzidas quase que instantaneamente após a publicação na Inglaterra. Mas prossigamos para entendermos uma das razões de seu sucesso – leia o trecho abaixo:

Se eu irei me tornar o heroi de minha própria vida, ou se tal condição pertencerá a outrem, as páginas a seguir deverão mostrar. Para começar minha vida pelo seu início, registro que nasci (conforme fui informado e no qual acredito) em uma sexta-feira, à meia-noite. É lembrado o fato de que, quando o relógio começou a soar as horas, comecei a chorar, simultaneamente.

(Charles Dickens, David Copperfield, tradução própria).

 

Se você não souber nada sobre a história de Dickens, curtirá o livro da mesma maneira – uma narrativa longa e descritiva, mas fluida. David Copperfield é um rapaz que come o pão-que-o-diabo-amassou após a morte da mãe. Nas mãos de seu padrasto, passa por todo tipo de penúria, mas nunca desiste de ser dono de seu próprio nariz, um otimista em plena era Vitoriana marcada por ideias retrógradas advindas do Darwinismo social – dentre essas ideias, a de que as classes mais pobres não tinham capacidade para alcançar um patamar intelectual semelhante ao dos mais ricos. Mas Copperfield é uma subversão disso: é um rico que fica pobre e que fica rico novamente. É alguém que mostra que não há categorias definidas ou limitadoras para o ser humano.

Certo, mas você disse que ia falar sobre o Contexto do autor, o que o cercava. Cadê? Onde está?

Preste atenção no nome de David Copperfield. Agora, no de Charles Dickens. Não tem nada aí te chamando a atenção, não?

Hum. Nunca tinha parado pra pensar nisso, mas…

O caso é: Contexto é algo que se apreende fora do Texto. O Texto denuncia as ideias do autor, mas não explica sua origem. “David Copperfield” é considerado até hoje o romance mais próximo de uma autobiografia de Dickens justamente pela história do autor: a família de Charles vivia muito bem, mas o pai acabou sendo preso por estar endividado – igual ao Sr. Micawber, o mentor de David. A família passa por tempos difíceis, todos tendo de trabalhar – incluindo o jovem Charles, que trabalhou numa fábrica de sapatos. Por conta dessa situação, sua obra é constantemente marcada pela vida da classe trabalhadora urbana, sendo Dickens seu porta-voz na luta por melhores condições de trabalho e de vida, além de lutar pelo auxílio aos órfãos, deficientes físicos e menores de idade que trabalham nas fábricas. Dessa experiência, Dickens projeta em seus romances e contos a insatisfação com a revolução industrial que fez progredir o Império Britânico mas que sacrifica a vida de seus cidadãos em nome desse progresso. A narrativa longa se torna uma ferramenta para a reafirmação do caráter humano dessas personagens, com sua jornada envolvendo mesmo os leitores mais afortunados.

Mas e aquela personagem Fagin, do “Oliver Twist”? Dickens foi abertamente antissemita ali, não?

É questionável, mas compreensível se pensarmos a época em que ele viveu – século XIX, com todos aqueles pogroms ocorrendo no Leste Europeu, o preconceito secular, etc. Mas digo que é questionável porque se Fagin, um vilão, era judeu, o Sr. Riah, de “Nosso Amigo em Comum”, também judeu, é representado de forma positiva. E o que falar do Pequeno Tim, de “Um Conto de Natal”, um garoto com deficiência física que se torna o fruto da redenção de Scrooge? Algo impensável para os darwinistas sociais! Ou Sydney Carton, o advogado de péssima reputação que salva a vida de Charles Danton em “Um Conto de Duas Cidades”? Uma personagem criada em contraponto à luta da rainha Vitória pela “moral e os bons costumes”. E que tal o criminoso Magwitch, de “Grandes Expectativas”, não só visto como incorrigível mas tendo sido mandado para viver definitivamente na Austrália, naquela época uma colônia penal do Império Britânico? Ele vai contra as ideias de sua época justamente por ser inocente – e por resistir à corrupção moral em um ambiente desfavorável.

Vide que tudo isso explica as motivações por trás da criação das tramas e das personagens de Dickens. Em alguns momentos, ele assume a visão de sua época, mas em outros ele está muito à frente dela. Tal exame só pode ser realizado considerando os aspectos externos ao Texto, justamente aquilo que chamamos de Contexto – onde e em que momento histórico o autor e sua obra estão inseridos. Como no caso da ponte, precisamos saber onde ela começa e onde termina, as fundações que a tornaram firme a ponto de o engenheiro saber o ponto a partir do qual iria erguê-la – a incerteza pode custar caro se não prestarmos o pouco que seja de atenção nisso, uma lição válida mesmo pra quem já está atuando na área de crítica literária.

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