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A Santíssima Trindade Literária: Texto

janeiro 12, 2013

(Este é o primeiro de uma série de três textos sobre os três principais elementos de uma obra literária: Texto, Contexto e Subtexto.)

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Vocês se lembram de quando, no post anterior, vimos o exemplo da ponte? Bem, o exemplo é válido mesmo aqui: digamos que o Texto é a parte externa que você vê e percorre da ponte. Se você estiver lendo este mesmo post como se fosse uma ponte, você estará percorrendo-o com seus olhos para chegar a algum lugar que, creio eu, deva ser justamente a compreensão do que se trata um “Texto”.

Mas isso não é óbvio?

Se eu fosse um pouco mais criativo – e malvado -, poderia até destroçar suas expectativas mudando de assunto. Mas como sou bonzinho, continuemos.

As palavras que você lê, na ordem como lê, no idioma que você lê – isso é um Texto.

Ok, podemos ir pra casa agora.

Na-na-ni-na-não. Tem mais.

Tem?

Tem, e muito.

O Texto é, basicamente, a parte que você lê. Não há muito segredo nisso, não é? Na verdade, o Texto denuncia mais do que se pensa – e olha que nem entramos no campo do Subtexto.

Leia o exemplo abaixo:

Dentro do restaurante da estação estava quente e iluminado; as mesas brilhavam de tão limpas e algumas estavam cobertas de toalhas com listras vermelhas e brancas; e haviam toalhas com listras azuis e brancass nas outras e, em todas elas, cestinhas com pretzels em saquinhos de papel lisos por causa do açúcar.

(Ernest Hemingway, Homenagem à Suíça – Parte II: Sr. Johnson Fala sobre o Assunto em Vevey, tradução própria).

 

O que podemos entender desse trecho?

Que ele estava em uma estação, com certeza uma com ferrovias.

E como você sabe disso?

Bem, é Hemingway, ele é do começo do século XX. Não haviam inventado o avião ainda, ele lutou durante a 1ª Guerra Mundial.

Tudo isso é verdade. E o que mais?

Hum… Ele está num restaurante, certo? Talvez esteja esperando por alguém, mas eu precisaria do restante do texto…

Não. Gostaria que você me dissesse o que mais chama a atenção aqui nesse trecho.

Complicado? Um pouco, mas preste bem atenção: por que citar o clima dentro do restaurante? Por que todo o esmero do restaurante? Por que as toalhas têm listras vermelhas e brancas e as outras, azuis e brancas? Por que pretzels? Nenhuma dessas perguntas é respondida apelando pro Subtexto – apela-se pro Contexto.

Ok, mas o texto aqui é sobre o “Texto”, certo?

Certo, e é nisso que eu quero chegar: se Hemingway queria nos passar algo de interessante, uma informação relevante, ele precisava fazer da maneira mais clara possível. O trecho usado como exemplo é uma descrição que apela pra um dos nossos sentidos: a visão. Podemos dizer que não há muito de interessante numa descrição do tipo, mas ela é necessária porque Hemingway quer nos passar dados através de cada palavra, de cada adjetivo, de cada substantivo. A sintaxe (grosso modo, a ordem das palavras) é usada de uma maneira que o leitor não se perca na descrição, é algo muito cuidadoso:

“[…] as mesas brilhavam de tão limpas e algumas estavam cobertas de toalhas com listras vermelhas e brancas; e haviam toalhas com listras azuis e brancas nas outras […]”

Repare que ele começa dizendo que “algumas” mesas estavam cobertas; depois, ele fala que “as outras” também estavam. Que impressão você tem de alguém que nota uma coisa, e depois se corrige quando olha melhor? Apesar de serem toalhas de cores diferentes, ele não explica a diferença de cara, mas apenas na frase seguinte. Pra te ajudar, sim, essa é uma estação de trens. Repito: que impressão você tem, então, de alguém que nota uma coisa em um espaço, e depois se corrige quando olha melhor? Que essa pessoa acabou de chegar. O narrador, então, estabelece aqui a cena para que o leitor visualize aquilo que encontraria caso ele mesmo adentrasse nessa estação: notaria as mesas à frente primeiro, e depois as demais. Veja só: você monta toda a cena somando as partes – temos uma “estação” e várias “mesas”. Iguais? Não, diferentes, mas você só nota quando olha melhor – pelo olhar do narrador. Toda uma série de ações/percepções denunciada apenas pela parte superficial do conto! Imagine o que mais não descobriremos quando analisarmos seu Contexto?

(Revisitaremos esse trecho quando falarmos sobre Contexto, prometo.)

Agora, vamos a outro exemplo:

“[…] quando eu pus a rosa no cabelo que nem as andaluzas faziam ou será que hei de usar uma vermelha sim e como ele me beijou no pé do muro mourisco e eu pensei ora tanto faz ele quanto outro e aí pedi com os olhos pra pedir de novo sim e aí ele me perguntou se eu sim diria sim minha flor da montanha e primeiro eu passei os braços em volta dele sim e puxei ele pra baixo pra perto de mim pra ele poder sentir os meus peitos só perfume sim e o coração dele batia que nem louco e sim eu disse sim eu quero Sim.

(James Joyce, Ulysses, trad. Caetano Galindo).

 

Cadê a pontuação? Por que apenas o último “sim” está em maiúsculo?

Quando você pensa, você pensa colocando pontuação?

Foi o que eu pensei. A pontuação é uma forma de esclarecer quais pontos são relevantes dentro de um texto, quando a ideia está contida de forma plena e inteligível, o que pode ser somado, etc. – daí a razão porque é necessário saber usar bem a pontuação, principalmente as vírgulas, que podem ser interrupções, novas ideias, explicações, etc. Contudo, sabemos lá porquê, isso não acontece – aparentemente – quando pensamos/refletimos/contemplamos/lembramos (sobre) algo. Pela cena acima, temos uma descrição de atos (“puxei ele pra baixo pra perto de mim”), cenário (“no pé do muro mourisco”) e sensações (“e o coração dele batia que nem louco”) que ocorre numa situação recorrente: um pedido de casamento.

Um pedido de casamento? Onde isso está escrito?

“[…] pedi com os olhos pra pedir de novo sim e aí ele me perguntou se eu sim diria sim […]”

Hum, ok. Concordo. Mas por que o último “sim” está em maiúsculo?

Como eu disse acima, pensar sobre algo não envolve o uso de pontuação. Dessa falta de pontuação, podemos presumir que a personagem, uma mulher neste caso, está lembrando de um momento feliz da vida dela. Contudo, em que outra situação uma pessoa diria um “sim” tão efusivo?

Aaaahhhhh

Sacou, né? Pois é. Notando os pequeninos detalhes do Texto, já podemos aprender a história dela e o que ela estaria fazendo nesse exato momento. Nesse trecho, não há descrições visuais, apenas impressões, ora de caráter reflexivo ou sinestésico. É a essa forma de texto onde uma ideia puxa outra sem estrutura formal aparente (uma sintaxe “normal”) que chamamos de fluxo de consciência.

O que destaca ambos os trechos aqui? Primeiro, ambos são bem escritos, cada um dando tantas quantas informações são necessárias para o leitor visualizar a cena; segundo, Hemingway é descritivo, enquanto que Joyce é mais sinestésico – de acordo com esses trechos. Os textos de ambos os autores, se analisados sucintamente, mostrarão muito mais coisas – e olha que já aprendemos bastante só com isso. Mas vamos a mais um exemplo:

“[…] por ora, o Piloto estava, como costumam dizer, preso àquele momento. E o momento incluía a poça de sangue crescendo em sua direção, a pressão da luz do final do amanhecer atravessando a porta e as janelas, os ruídos do tráfego da interestadual, o som de alguém chorando no quarto ao lado.

(James Sallis, Drive, trad. Amanda Orlando)

 

Ah, é a cena de um homicídio, certo? Numa cidade, não é?

Sim, tem uma “poça de sangue” e “os ruidos do tráfego interestadual”, mas não é disso que eu quero falar agora.

Repare nisso: quem está contando a história?

Pois é, temos o Piloto em cena, “preso àquele momento”, mas não é ele quem conta a história. O romance acompanha sua vida (ou “pedaço de vida”, como diria Yves Reuter), mas não é ele quem narra. Se alguém conta a história de outro(s), com acesso às cenas, pensamentos (às vezes) e falas por completo, dizemos que é uma narração em “terceira pessoa” – basicamente, você nota alguém falando na “primeira pessoa” aqui?

O que mais notamos: a cena é sinestésica, com impressões empíricas (visão e audição). Temos até um comentário curioso (“como costumam dizer”), o que deixa margem para uma interpretação – a de que a história é contada por alguém próximo (dos fatos? Das personagens?), já que esse trecho denuncia um suposto relato oral, como se o Narrador estivesse contando isso para alguém, uma confidência. No entanto, é algo contado para ninguém em particular, como uma lenda urbana, um relato religioso, algo folclórico.

Veja só: sem recorrer às demais partes dessa trindade, o assunto rendeu. Poderia discorrer aqui sobre como o Texto denuncia o gênero, etc., mas acredito ter deixado claro como se analisa o Texto isoladamente – até porque, entraremos nos próprios gêneros mais tarde. Da mesma forma que a ponte, você procura contemplar/atravessar notando por vias visuais e tácteis as condições estruturais expostas. Pra ir além, a estrutura em si, só mesmo fazendo um buraco ou desmontando-a, pedra por pedra – o que nos levará ao Subtexto, do qual falaremos mais tarde.

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