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Uma Visão Pessoal sobre a Interpretação de Texto

janeiro 1, 2013

De forma alguma pretendo dizer aqui sobre como você deve interpretar aquele romance, poema, bilhete, etc., que você tanto gosta ou odeia. Contudo, considerando os inúmeros choques que ocorrem por tanta gente discordar sobre o verdadeiro sentido de qualquer texto, gostaria de oferecer uma abordagem simples a fim de, pelo menos, explicar como eu faço uma interpretação. Aviso logo que não citarei autores famosos, nem obras de referência; manterei tudo no nível mais simples possível.

Vamos lá: visualize uma ponte.

De ferro, de madeira, de tijolo? Estilo gótico ou rococó?

Apenas visualize uma ponte.

Grande ou pequena? Ao nível do chão ou no alto?

APENAS VISUALIZE UMA PONTE!

Visualizou? Perfeito. Prossigamos.

Como é sua ponte? Não precisa descrever pra mim. Preste bem atenção nela. Se quiser pensar em ângulos, materiais, condições estruturais, siga em frente. Se quiser admirá-la de longe, por mim tudo bem. Contudo, mesmo de longe você vai ter uma ideia de que material ela é feita, certo? De onde ela começa e onde ela termina. Se ela é via de mão única, dupla, ou se tem diferentes saídas.

(Resumindo: a essa altura você já sacou que pedi a você que visualize um texto qualquer como se fosse uma “ponte”, certo?)

Leia o antepenúltimo parágrafo. O que acabei de fazer ali – e pedi que você fizesse – é uma interpretação. Você visualizou a ponte, se dispôs a conferi-la ou então a contemplou de um determinado ponto, pensou em como ela foi feita e mesmo quais as alternativas que ela dá a você.

Na verdade, o que você fez foi analisar a estrutura da ponte. E quando eu digo “ponte”, o que eu quero dizer mesmo? Um texto. Todo texto possui uma estrutura. Chama-se essa análise de “análise estrutural da narrativa”, e é o meu tipo favorito de análise. Por que? Bem, porque da mesma forma que você visualiza o material da ponte, eu visualizo as características e desenvolvimento das personagens de um texto (assim como uma ponte geralmente é constuída com tijolos baianos e blocos de concreto lado a lado, há personagens “planas” e “redondas” em uma mesma obra – explicarei isso mais tarde); da mesma forma que você contempla a ponte, procuro entender como o texto é disposto (ou seja, o que conhecemos comumente como “início-meio-e-fim”); e da mesma forma que você verifica aonde a ponte pode te levar, fico pensando no que o texto tem a me dizer (qual a intenção do Autor? Que sensações ele quer provocar em mim da forma como ele montou o texto, ou seja, de caso pensado?) .

Agora, visualize a ponte de outra maneira.

De novo?

Sim, de novo. Mas de outra maneira, ok? Peço que você visualize a ponte novamente. Mas não pense nela em termos de estrutura, ok? Nem de materiais, nem de ângulos. Não fique parado aí olhando pra ela, mas também não invente de cruzá-la! Visualize a ponte, ou uma ponte, e me diga o que isso representa pra você.

Não pode me dar uma pista?

Lamento. Antes eu tinha te dado “a faca e o queijo”. Agora é por sua conta. Vamos lá: o que ela te diz?

Meu Interlocutor Imaginário – eu amo esse tipo de brincadeira literária! – me produziu algumas reticências que eu quero que você, Leitor, substitua por algo que lhe veio à mente. Quando você pensa em pontes, pensa em que?

Pessoalmente, eu poderia dar várias alternativas: travessia, uma nova jornada, a própria vida, etc. Como eu disse antes, a ponte que você visualiza pode oferecer várias alternativas, sendo que algumas podem não ter sido cogitadas pelo Autor. Essas são algumas das que eu tenho em mente – você pode muito bem recordar-se de um evento da sua infância, ligar a algo que você testemunhou ou recordou… São muitas alternativas! Uma ponte visualizada da forma como eu te pedi nunca será a mesma ponte que outra pessoa visualizou. À parte pessoal da sua interpretação sobre essa ponte, chamamos de “subjetivismo”. A forma como você a visualizou, chamamos de “abstração”.

Portanto, veja só: temos uma “ponte”. Pedi que você a visualizasse de duas maneiras: estrutural e abstrata. Era a mesma ponte, né? Será? Bom, era uma ponte – a menos que você tenha me desobedecido, o que me deixaria muito chateado. (Brincadeira! Apenas peço pra que leia o texto desde o início e obedeça meu comando, ok?)

Uma interpretação de texto exige, basicamente, esses dois tipos de análise. Por que? Bem, de que adianta uma ponte que signifique algo para alguém se ela não puder sustentar o peso dessa mesma pessoa? A ponte tem de ser bem feita, bem construída. Contudo, nunca olharemos para uma ponte sempre dessa maneira, certo? Muitas vezes quem a planejou sabe que a ponte não precisa ser apenas útil – ela precisa chamar a atenção, atrair o olhar, gerar algum tipo de sentimento/sensação (seja de caso pensado ou abstratamente) – e é isso o que chamo de Arte.

Contudo, não vou mentir pra você: existem inúmeras formas de fazer esse tipo de análise – bem como de fazer uma análise da “ponte”, certo? Mas você não tem todo o conhecimento do mundo para fazer isso, tem? Você usa aquele que tem à mão – assim como eu uso aqueles que eu tenho à mão. Como eu disse antes, o que faço aqui é um esboço simples de como eu faço isso.

Desde já, reconheço que a proposta deste texto não é original – peguei-a emprestada de um diálogo entre Kublai Khan e Marco Polo em “As Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino. (Um abraço pra minha ex-professora, Viviane Veras, que me apresentou esse texto.) A única diferença é que o diálogo sobre a ponte tratava da linguagem, enquanto que eu me dispus a falar sobre literatura. No diálogo entre os dois falava-se apenas da estrutura, enquanto que eu abro espaço para uma análise abstrata – e como não estamos falando de “linguagem” aqui, prefiro não me estender sobre o assunto.

Espero que tenham gostado da minha explicação. Qualquer falha, a culpa é minha, e não do Calvino, ok? Como disse antes, não tenho a menor pretensão em ensinar-lhes como interpretar textos, mas achei que seria bom mostrar que quando se fala em crítica literária, teoria da literatura, narratologia, etc., não é apenas um monte de blá-blá-blá – é só um monte de gente que ama ler e quer aprender mais e mais pra contribuir para o reconhecimento do empenho humano.

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